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Seborreia, o que é isso afinal?

A pele é um órgão extremamente renovável, cuja epiderme – camada mais superficial da pele – é substituída completamente a cada 22 dias nos cães e gatos.

Os cães são mais frequentemente acometidos por seborreia e por disqueratoses do que os gatos, pois o hábito que estes têm de se lamberem remove as escamas e a oleosidade da pele

Por Cibele Nahas Mazzei

O termo seborreia deriva da união de duas palavras etimologicamente distintas: sebo, do latim  sebum, que significa gordura ou óleo, e rreia, do grego rhoia, que significa fluxo. Portanto, seborreia seria, ao pé da letra, fluxo de sebo ou gordura pela pele.

A gordura é um constituinte normal da pele, produzida pelas glândulas sebáceas e vital para manutenção da barreira epidérmica e da umidade da pele e do pelame. Contudo, tanto o seu excesso quanto a sua falta levam a problemas dermatológicos que se manifestam como: coceira exagerada, perda do pelame, odor fétido e rançoso, ou ressecamento e descamação da pele, a dita “caspa”.

Durante muito tempo, em função das diferentes formas de “seborreia” observadas na clínica de cães e gatos, adotou-se a seguinte classificação: seborreia seca e seborreia oleosa. Atualmente, em Dermatologia Veterinária, preferimos utilizar o termo “disqueratose” para nos referirmos a distúrbios ou alterações no processo de queratinização da pele, ou seja, do processo de morte e renovação pelo qual a epiderme passa diariamente. Mas, afinal, o que causa a seborreia ou as disqueratoses?

Antes de mais nada, vale a pena comentarmos que a pele é um órgão extremamente renovável, cuja epiderme – camada mais superficial da pele – é substituída completamente a cada 22 dias nos cães e gatos. Desequilíbrios neste processo natural de morte e renovação celular levam às disqueratoses.

As disqueratoses podem ser congênitas, ou seja, determinados animais de certas raças já nascem com esta predisposição e os sintomas normalmente aparecem antes de 1 ano de idade. As raças mais acometidas são: Cocker Spaniel, West Highland, Basset Hound, Setter, Dobermann, Shar Pei, Labrador e Pastor Alemão. Nestes casos o proprietário tem que ter em mente que o tratamento apenas aliviará os sintomas mas nunca haverá uma cura definitiva.

O mais frequentemente observado, contudo, são as disqueratoses secundárias, ou seja, aquelas que acompanham ou são secundárias a outras doenças de pele. Como a sarna demodécica, ou sarna negra, por exemplo. Esta é uma dermatite parasitária congênita e hereditária que normalmente vem acompanhada de disqueratose ou seborreia. Ainda temos muitos outros exemplos: micoses superficiais (doenças de pele causadas por fungos como dermatófitos ou Malassezia), hipotireoidismo (mau funcionamento das tireoides), Síndrome de Cushing (doença endócrina onde há um excesso de cortisol no sangue), deficiências nutricionais (deficiência de vitamina A, de ácidos graxos, de proteínas), infestação por piolhos ou pediculose, alergias (alergia a inalantes ambientais, alergia alimentar, alergia a picada de pulgas).

Todas estas dermatopatias podem vir acompanhadas por disqueratoses. Nestes casos o tratamento é mais eficaz, pois deve ser focado na identificação e no controle da doença subjacente, além, é claro, do uso de xampus que controlam a oleosidade e a multiplicação celular da pele.

A seborreia pode também ser classificada, quanto ao local do corpo envolvido, em localizada e generalizada. Na forma localizada as áreas mais acometidas são aquelas onde há dobras anatômicas da pele, como região do meio dos dedos, das axilas, das virilhas, ou mesmo ao redor dos olhos. Na forma generalizada, por sua vez, as lesões acometem o corpo todo.

Os cães são mais frequentemente acometidos por seborreia e por disqueratoses do que os gatos, pois o hábito que estes têm de se lamberem remove as escamas e a oleosidade da pele. A seborreia primária é muito rara nos felinos.

As disqueratoses normalmente vêm acompanhadas de uma otite externa ceruminosa, tanto em cães quanto em gatos. Isto se deve ao fato de que as glândulas ceruminosas dos meatos acústicos respondem da mesma forma que as glândulas sebáceas da pele e também produzem muito cerume quando há alguma doença cutânea primária como as  que já foram descritas anteriormente.

O tratamento das disqueratoses implica o uso de xampus deseborréicos, com propriedades queratolíticas e/ou queratoplásticas. Os primeiros agem de forma a amolecer a queratina (camada de células mortas da pele) e facilitar a remoção das escamas. Já os queratoplásticos inibem a multiplicação celular da epiderme, diminuindo a formação de escamas, que nada mais são do que células mortas.

Devemos, além disto, controlar as causas de base no caso das disqueratoses secundárias. Para isto, é necessário um bom exame físico do animal, exames complementares como parasitológicos, dosagens hormonais, exames citológicos, cultivos microbiológicos e até mesmo testes alérgicos.

Há formas localizadas de disqueratoses que se manifestam como hiperqueratose nasal e a hiperqueratose de coxins, ou seja, um espessamento da pele com rachaduras na região do nariz ou das ditas “almofadinhas” das patas (coxins). Há casos em que estas alterações não têm uma causa determinada, mas também há aqueles em que são secundárias a outras doenças mais graves, tais como dermatites autoimunes, dermatite de contato, cinomose, leishmaniose, etc.

Portanto, uma simples seborreia pode ser o prenúncio de que o seu animal está com alguma outra doença dermatológica ou mesmo interna e é sempre bom verificar com seu veterinário qual o melhor tratamento a adotar.

Profa. Dra. Cibele Nahas Mazzei é mestre em Dermatologia Veterinária pela USP. www.dermatopet.com.br

 

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